Planejamento Educacional

03/01/2012 18:43

 

Planejamento Educacional

* Danilo Gandin

Planejamento não é um conceito que todos entendem do mesmo modo: as pessoas, ou os grupos que o utilizam, pensam que estão falando a mesma coisa quando dizem a palavra, mas a possibilidade maior é que cada pessoa ou grupo esteja dizendo algo diferente e próprio.

O tipo de ação humana é variadíssimo; isto cria muitas necessidades de planejamento e, como conseqüência, muitas propostas de conceitos, modelos, técnicas, instrumentos, uma para cada necessidade. Como a todas se dá o mesmo nome, planejamento, utilizar a palavra é meter-se numa estrada com incontáveis encruzilhadas, com inúmeros caminhos que vão e que vêm, com bifurcações de todo o tipo. Pode alguém querer ir ao cinema e dizer que vai planejar, querer construir uma casa e dizer que vai planejar, querer ser prefeito da cidade e também dizer que vai planejar; dir-se-á que há planejamento quando se administra um aeroporto, quando se constrói uma estrada, quando se dirige uma fábrica, quando se busca a felicidade. Tudo parece igual, mas não é. Mais caminhos ainda tem o planejamento quando envolve mais pessoas: quanto maior o grupo, mais possibilidades de configuração para o planejamento, conforme todos tenham o mesmo poder ou conforme ele esteja distribuído de forma diversificada entre as pessoas.

Acresça-se a isto que sempre há planejamento no fazer humano. Sempre as pessoas e os grupos pensam um futuro, agem no presente para alcançá-lo e, para tomar esta ação mais fácil, mais adequada, mais eficiente e mais eficaz, utilizam o planejamento, isto é, pensam, antes e durante a prática, a relação de suas ações, atitudes, regras e rotinas com o resultado que pretendem.

Para obter alguma clareza sobre o assunto, deve-se, antes de tudo, firmar a noção de que o planejamento é uma ferramenta. O que caracteriza o planejamento, como outras ferramentas, é seu fim: facilitar ou possibilitar nosso trabalho. No caso, o trabalho é organizar nossa ação, ou seja, possibilitar (ou facilitar) a inclusão, a supressão, o fortalecimento ou a diminuição de idéias na realidade ou estabelecer novas relações entre elas. O valor do planejamento, então, guardadas as proporções, não é maior nem menor do que o do martelo: assim como o martelo facilita (muitas vezes possibilita) que se modifique a realidade unindo duas tábuas com um prego, assim o planejamento facilita (possibilita) que se transforme a realidade, introduzindo nela algo que lá não existia e que era desejável. É preciso este cuidado: como o martelo é necessário, o planejamento também o é.

Por isto é que vamos ter com o planejamento o mesmo problema que temos com todas as ferramentas:
. Nem sempre reconhecemos o planejamento que está presente numa prática: como ele assume diversos modos de ser, acabamos por não reconhecê-lo quando ele é realizado de forma diferente da qual nós o pensamos. É como se pensássemos que as ferramentas úteis são a enxada e o martelo e não reconhecêssemos como ferramenta um computador ou uma bicicleta que alguém estivesse usando;
. Muitas vezes ao se saber qual é o tipo de planejamento apropriado para uma situação;
. Embora sempre se utilize o planejamento, o uso errado é freqüente. Algumas pessoas usam o martelo com mais danos do que com trabalho útil. Muito mais freqüentemente, grupos utilizam determinado tipo de planejamento sem resultado algum porque o fazem de maneira errada.

Para aumentar a clareza, é preciso distinguir o planejamento administrativo (gestão) do planejamento social ou político.

Quase sempre, ao falar em planejamento, as pessoas estão pensando em processos administrativos. Quando se abrem os livros que falam de administração, encontra-se, quase inevitavelmente, a concepção de que a primeira tarefa da administração é o planejamento. Isto faz sentido; porém, a menos que se estabeleçam níveis e tipos de planejamento e se esclareça qual deles compete à administração, seremos levados aos desastres que costumamos verificar e dos quais somos vítimas há longo tempo.

Acontece que esta aproximação entre planejamento e administração leva o administrador a pensar que a definição dos destinos, dos rumos e das decisões sobre fins são de sua total responsabilidade – seja ele o governador, o pai de família ou o diretor da escola. Assim, o administrador assume o papel que é do povo e, embora chame este povo à participação, leva-o apenas à colaboração para que suas decisões dêem certo. Assim, o administrador, afogado e perdido diante da posição (hoje, ao mesmo tempo, esperada e odiada pelo povo) de ser uma espécie de pai totalitário e onipotente, perde sua eficiência própria de administrado, na ânsia de, em alguns anos, manifestar-se como salvador.

Ou, como também é freqüente, embora contraditório, assume seu papel de buscar os meios (ser administrador) sem que haja fins além do crescimento, porque ele – com exatidão – não considera tarefa sua definir os fins, mas não sabe como administrar para que o povo faça isto. Há até os administradores que, embora se sintam perdidos, julgam que o povo – ignaro - nada pode decidir.

Quando a realidade se deteriora, muitos administradores dizem, diante da crítica, que as coisas vão mal porque as pessoas e os grupos, tendo autonomia para resolver os problemas, não sabem fazê-lo.

De fato, a administração se desenvolveu para que a empresa:
. Se mantenha viva e funcionando;
. Cresça;
. Atenda melhor;
. Melhore seu produto;
. Aumente a qualidade para ter mais competitividade e, com isto, garantir a continuidade através dos tempos;
. Possa responder com eficiência às perguntas do como fazer e de como fazê-lo, sem descuidar de definir quando, onde, quem...

Por isto, à administração de uma escola (serve para outras instituições, mas este texto é dirigido à escola) compete elaborar planos em que se definam coisas do tipo:
. Como realizaremos o dia das mães;
. Quantas aulas de História serão dadas semanalmente;
. Como pagaremos o almoço de confraternização de fim de ano;
. Que tipo de comemoração faremos em 7 de setembro;
. Como faremos as provas de seleção para os diversos cursos;
. Em que horários faremos determinadas reuniões;
. Como resolveremos os problemas de pessoal;
. Onde buscaremos recursos para que a escola funcione.

Mas, para certas instituições, grupos ou movimentos – inclua-se aqui as escolas – há outras necessidade de planejamento além das administrativas. A administração é tudo o que necessitam as empresas comerciais e industriais e até, em geral, as empresas de serviços porque, existindo para um determinado fim já preestabelecido, precisam apenas adaptar-se às circunstâncias que a realidade apresenta para, dentro delas, alcançar, da maneira mais completa possível, este fim. Mas há movimentos sociais, instituições e grupos que necessitam de outras ferramentas de planejamento, do que falaremos mais adiante.

Para os processos administrativos, desenvolveram-se ferramentas de planejamento (com conceitos, modelos, técnicas, instrumentos): nas décadas passadas a administração por objetivos, a administração por projetos, a teoria do custo-benefício; mais recentemente o GQT e, agora, o Planejamento Estratégico.

Claro que o planejamento estratégico assume o que era bom nestas correntes anteriores e passa a tomar conta das reflexões sobre planejamento administrativo, incluindo a compreensão de que se trata de administração, mesmo que estratégica, e não de planejamento no seu sentido mais amplo. É o que aparece já no título do livro que, pela sua amplitude, inclusive pela multiplicidade de autores, parece-me característico deste pensamento: Do Planejamento Estratégico à Administração Estratégica. É necessário citar, com mais cuidado ainda, livros como Gestão da Qualidade Total na Escola. É necessário citar porque houve um momento – e no fundo de alguns programas educacionais ainda há – em que muito se falou sobre qualidade total. Além disto, o livro dá uma boa idéia do que era isto e traz algumas motivações e algumas idéias que poderão ser aproveitadas dentro de outra totalidade. Deve-se ter cuidado porque também este livro filia-se, julgo que inadvertidamente, à corrente que pensa que uma escola só necessita de gestão e não de visão política e, até, de ideológica.

Mas, para instituições que têm mais diretamente influência sobre a estrutura da sociedade, isto é, cujo primeiro fim não é ganhar dinheiro e manter-se no mercado, mas contribuir na construção da cultura em sua compreensão mais ampla, este planejamento administrativo não é suficiente; estas instituições terão que ter outras ferramentas de planejamento para definir questões sobre o tipo de sociedade que vão ajudar a construir, para debater a questão da felicidade humana. O planejamento administrativo não inclui a ação sobre a sociedade e o mais fundamental para estas instituições é esta influência sobre ela.

Para um começo de compreensão do planejamento dentro desta visão mais ampla de construção social, necessária a tais instituições, grupos ou movimentos, não podem passar desapercebidos autores como Carlos Matus e Robert M. Randolph, o primeiro em várias obras e o segundo no primoroso A Administração do Planejamento. Matus enfoca o planejamento próprio dos governos, tem uma visão ampla, apresenta questões interessantíssimas, além de técnicas e instrumentos.

Mas ainda não é o planejamento suficiente para as instituições cujas grandes questões não são o como fazer ou o com que fazê-lo, mas o que fazer e, sobretudo, o para que e o em proveito de quem fazê-lo. A sobrevivência nem deveria ser, para estas instituições, grupos ou movimentos, a grande finalidade; mais importante do que isto seria alcançar resultados sociais. Estou falando de instituições como sindicatos, escolas, igrejas, partidos políticos, ONG’s em geral e governos, não órgãos restritos e determinados, mas governos como os de um município, de um estado ou do país.

Para tais instituições, administrar não basta. Para elas não é suficiente gastar bem o dinheiro, organizar-se para ter mais, definir prioridades dentro de esquemas bem definidos de fins. É necessário que estabeleçam horizontes, organizados com teoria, mas, também, com ideologia ou, pelo menos, com claro pensamento sobre que sociedade se quer produzir. Na administração (gestão), as pessoas olham o mundo externo à instituição para ver que reflexos este mundo terá sobre o seu (da instituição) desenvolvimento; o planejamento político, a instituição examina este mesmo mundo externo para programar a influência que ela vai ter sobre sua (do mundo) constituição.

Modelos para o planejamento administrativo não dão conta disto; não basta, por exemplo, uma escola ou uma universidade estabelecer sua missão, nem quando liga isto a algo que as circunstâncias solicitam: dizer que desenvolverá um processo educativo ligado ao bem comum ou à ecologia é suficiente porque será necessário definir como pensa a sociedade, o meio ambiente, a educação, etc. São necessários modelos novos e, junto com eles, conceitos que os fundamentem e técnicas e instrumentos que os concretizem. Não basta a um governo trabalhar pelo desenvolvimento: precisa ter instrumentos para coordenar o povo a tomar decisões profundas sobre o que faremos com a terra, se é possível ter como aspiração possuir um automóvel por família sem considerar possíveis prejuízos ao ambiente, dificuldade com combustível e espaço, etc.

As correntes de planejamento que vão além da administração servem à transformação, são próprias para as épocas de crise, isto é, para as épocas em que a humanidade, uma sociedade ou um de seus setores se reestrutura. Enquanto isto, o planejamento da gestão serve à manutenção, às melhorias de uma estrutura tida como boa, à consolidação do existente; ele sobressai em época de calmaria ou quando se pensa (para aqueles que assim pensam) que estamos num mundo bem estruturado.

Aí é que aparece como ferramenta importante o que se chamou Planejamento Participativo. Há dos que entendem a expressão adequada para qualquer esforço de planejamento em que não só as chefias, mas também outras pessoas, tenham voz e voto. Seria importante abandonar esta conotação tão tênue. O Planejamento Participativo é uma proposta de ferramenta bem determinada, com filosofia própria – que o direciona para as instituições que pretendem ter como primeira tarefa a contribuição para a construção de uma determinada sociedade. Ferramenta que tem conceitos próprios, modelos próprios, instrumentos e técnicas próprias. Ferramenta que pretende servir para o planejamento político – não apenas estratégico para a instituição – e também para o planejamento administrativo a serviço deste planejamento político.

A revista que mais traz material sobre Planejamento Participativo é a Revista de Educação da AEC, já há 30 anos publicando materiais sobre educação escolar, ressaltando-se nela a opção definitiva por este processo inovador. O número 120 desta Revista, exatamente o que comemora os 30 anos de existência, traz um índice remissivo, no qual várias páginas são ocupadas com artigos relativos à questão do planejamento. Para encontrar a Revista, contatar com AEC DO BRASIL, SBN Quadra 01 – Bloco H – Loja 40 – CEP 70040-000 – Brasília – DF, Fone (61) 3262992, .

Estes últimos textos consagram os conceitos, os modelos, as técnicas e propõem instrumentos para o planejamento participativo em instituições escolares.

 

PARA SABER MAIS...

ANSOFF, H. Igor; DECLERCK, Roger P.; HAYES, Roger L. (orgs.). Do planejamento estratégico à administração estratégica. São Paulo: Atlas, 1981.

OLIVEIRA, Djalma de Pinho Rebouças de. Planejamento estratégico: conceitos, metodologias e práticas. 13 ed. Atual. e ampl. São Paulo: Atlas, 1999.
Nestes livros encontramos filosofia, motivação e instrumentos de planejamento que podem ajudar diretores de escola que estejam atentos aos limites de seu trabalho administrativo e que não queiram fazer da administração o planejamento da escola.

RANDOLPH, Robert M. Administração do planejamento. São Paulo: Mcgraw-Hill, 1977.
Randolph faz algo muito importante no campo da psicologia do planejamento, direcionando-o, especialmente, às pessoas individualmente e às empresas.

GANDIN, Danilo. A prática do planejamento participativo: na educação e em outras instituições, grupos e movimentos dos campos cultural, social, político, religioso e governamental. Petrópolis: Vozes, 1995.
Traz o fundamento deste tipo de planejamento, buscando deixar claros os conceitos, descrevendo os modelos básicos, apresentando instrumentos e técnicas mais utilizados e acentuando o modo próprio de participação que nele se espera, detalhando formas concretas para produzi-la e para vivenciá-la. Abre perspectiva para todas as instituições, mas concentra-se, pelos exemplos e por instrumentos propostos, nas escolas. Oferece, para as equipes de coordenação de planejamento destas instituições, um roteiro preciso e bem fundamentado.

GANDIN, Danilo; CRUZ, Carlos H. Carrilho. Planejamento na Sala de Aula. 4 ed. Porto Alegre: Edição dos autores, 2000.
O livro, publicação direta dos autores, apresenta uma forma concreta de realizar a filosofia da escola na sala de aula. Traz instrumentos, modelos, conceitos e técnicas para que a sala de aula se transforme num espaço de crescimento, tanto em conhecimentos como em habilidades e hierarquia de valores e, mais do que isto, que este espaço sirva não apenas a cada pessoa, mas à sociedade como um todo, através da vivência de um projeto político e pedagógico.

GANDIN, Danilo; GANDIN, Luís Armando. Temas para um projeto político-pedagógico. Petrópolis: Vozes, 1999.
Traz a abordagem do planejamento escolar a partir da grande questão que ocupa as escolas brasileiras hoje, que é a do projeto político-pedagógico, certamente aliada à busca de uma autonomia – difícil, mas necessária – das instituições escolares. A primeira parte do livro trata da atualidade e da importância do projeto político-pedagógico, relaciona-o com o processo de planejamento institucional e mostra como elaborá-lo; a segunda parte aborda alguns pontos que poderiam constar no projeto político-pedagógico das escolas, como tendências da educação, a avaliação, a qualidade.

MEZOMO, João Catarin. Gestão da qualidade total na escola: princípios básicos. Petrópolis: Vozes, 1997.
É necessário citar, com mais cuidado, porque houve um momento – e no fundo de alguns programas educacionais ainda há – em que muito se falou sobre qualidade total; além disto, o livro dá uma boa idéia do que era isto e traz algumas motivações e algumas idéias que poderão ser aproveitadas dentro de outras totalidades; deve-se ter cuidado porque também este livro filia-se, julgo que inadvertidamente, à corrente que pensa que uma escola só necessita de gestão e não de visão política e, até ideológica.

VASCONCELLOS, Celso dos S. Planejamento: Projeto de ensino-aprendizagem e projeto político-pedagógico. 7 ed. São Paulo: Libertad, 2000.
Apresenta esquemas, roteiros e relações entre o planejamento institucional e o planejamento na sala de aula; faz, também, comentários sobre procedimentos escolares improdutivos e sobre propostas que ajudam a retornar o caminho.