Texto: Coisas antigas

29/12/2011 17:02

 

Coisas antigas

 

       Depois de cumprir meus afazeres voltei para casa, pendurei o guarda-chuva a um canto e me pus a contemplá-lo. Senti então uma certa simpatia por ele; meu velho rancor contra os guarda-chuvas cedeu lugar a um estranho carinho, e eu mesmo fiquei curioso de saber qual a origem desse carinho.

      Pensando bem, ele talvez derive do fato, creio que já notado por outras pessoas, de ser o guarda-chuva o objeto do mundo moderno mais infenso a mudanças. Sou apenas um quarentão, e praticamente nenhum objeto de minha infância existe mais em sua forma primitiva. De máquinas como telefone, automóvel, etc., nem é bom falar. Mil pequenos objetos de uso mudaram de forma, de cor, de material; em alguns casos, é verdade, para melhor; mas mudaram.

       O guarda-chuva tem resistido. Suas irmãs, as sombrinhas, já se entregaram aos piores desregramentos futuristas e tanto abusaram que até caíram de moda. Ele permaneceu austero, negro, com seu cabo e suas invariáveis varetas. De junco fino ou pinho vulgar, de algodão ou de seda animal, pobre ou rico, ele se tem mantido digno.

      Reparem que é um dos engenhos mais curiosos que o homem já inventou; tem ao mesmo tempo algo de ridículo e algo de fúnebre, essa pequena barraca ambulante. 

      Já na minha infância era um objeto de ares antiquados, que parecia vindo de épocas remotas, e uma de suas características era ser muito usado em enterros. Por outro lado, esse grande acompanhador de defuntos sempre teve, apesar de seu feitio grave, o costume leviano de se perder, de sumir, de mudar de dono. Ele na verdade só é fiel a seus amigos cem por cento, que com ele saem todo dia, faça chuva ou sol, apesar dos motejos alheios; a estes, respeita.  O freguês vulgar e ocasional, este o irrita, e ele se aproveita da primeira distração para sumir   

       Nada disso, entretanto, lhe tira o ar honrado. Ali está ele, meio aberto, ainda molhado, choroso; descansa com uma espécie de humildade ou paciência humana; se tivesse liberdade de movimentos não duvido que iria para cima do telhado quentar sol, como fazem os urubus.

       Entrou calmamente pela era atômica, e olha com ironia a arquitetura e os móveis chamados funcionais: ele já era funcional muito antes de se usar esse adjetivo; e tanto que a fantasia, a inquietação e a ânsia de variedade do homem não conseguiram modificá-lo em coisa alguma.

                                                  BRAGA, Rubem. Ai de ti, Copacabana. Rio de Janeiro: Record, 1993.

 

 

1- A análise dos elementos constitutivos desse texto demonstra que ele é:

A) um artigo de opinião

B) um artigo científico

C) uma crônica

D) uma reportagem

2- Considerando as idéias desenvolvidas pelo autor, o texto tem a finalidade de :

A) vender um produto anunciado

B) informar as funções do objeto descrito

C) relatar, através de linguagem literária, o sentimento despertado por um objeto do cotidiano

D) comparar objetos antigos que subsistiram ao tempo e objetos modernos

3- O assunto principal do texto é:

A) o guarda-chuva, independente de seu material, é sempre útil.

B) a permanência de um objeto, resistindo às mudanças, devido à sua funcionalidade original.

C) a mudança de sentimento do autor pelo objeto descrito.

D) o guarda-chuva, em qualquer época, tem o costume de se perder e de se mudar de dono.

4- A mudança de sentimento do autor em relação ao guarda-chuva está contida em:

A) “... pendurei o guarda-chuva e me pus a contemplá-lo”

B) “... meu velho rancor contra os guarda-chuvas cedeu lugar a um estranho carinho...”

C) “... de ser o guarda-chuva o objeto do mundo moderno mais infenso a mudanças.”

 D)” ...  e eu fiquei curioso de saber qual a origem desse carinho”.

5- O enunciado que expressa a origem do carinho do autor pelo guarda-chuva é:

A) sua fidelidade aos amigos

B) sua humildade e paciência

C) sua resistência à mudança

D) sua funcionalidade

 

6- “... e olha com ironia a arquitetura e os móveis chamados funcionais...”. Por que olha com ironia?

A) porque ele já era funcional antes dos atuais chamados funcionais

B) porque ele só é fiel aos seus amigos cem por cento

C) porque é um dos engenhos mais curiosos que o homem já inventou

D) porque não importa o material de que é feito, ele se mantém digno.

7- No enunciado: “  as sombrinhas tanto abusaram das mudanças que até caíram de moda. Os termos sublinhados  expressam ideia de :

A) causa

B) consequência

C) concessão

D) tempo

8- Observe o emprego da conjunção ao final do 2º parágrafo: “... em alguns casos, é verdade, para melhor; mas mudaram. A idéia expressa é de :

A) adversidade

B) conformidade

C) concessão

D) conclusão

9- Observe o período do 2º parágrafo:  “ Pensando bem, ele talvez derive do fato... “ o recurso anafórico de substituição sublinhado refere-se a :

A) guarda-chuva

B) lugar

C) fato

D) carinho

10- “  Sou apenas um quarentão e praticamente nenhum objeto de minha infância existe mais em sua forma primitiva”. Os articuladores sublinhados contribuem para que o pensamento do autor seja melhor  explicado em:

A) quarenta anos é muito tempo para que os objetos permaneçam os mesmos

B) quarenta anos é pouco tempo para que os objetos mudem

C) na infância, os objetos parecem diferentes  do que realmente são

D) é natural que os objetos mudem muito em 40 anos

 

11- Marque o enumerado que expressa a opinião do autor sobre a mudança dos objetos:

A) as mudanças são sempre para melhor

B) as mudanças algumas vezes são para melhor

C) as mudanças nunca são para melhor

D) as mudanças são sempre para pior

12- O autor atribui vida ao guarda-chuva, dá-lhe características humanas ou lhe atribui ações. A alternativa que contempla ações atribuídas ao guarda-chuva que são próprias do ser humano  é:

A)” fiel aos amigos” e “ar honrado”

B) “ choroso” e  “ humildade”

C) “austero” e  “digno e grave”

D) “descrença” e “respeito”

13- O autor emprega aspectos denotativos  e conotativos para caracterizar o guarda-chuva. A alternativa que apresenta aspecto conotativo é:

A) negro

B) cabo e invisíveis varetas

C) tem algo de fúnebre

D) de algodão

14- Observe o termo sublinhado e assinale a alternativa que apresenta outro com o mesmo sentido: “... de ser o guarda-chuva o objeto do mundo moderno mais infenso a mudanças.

A) propício

B) promissor

C) contrário

D) favorável

15) No fragmento: “Mil pequenos objetos de uso mudaram de forma...”, o  emprego do numeral indica:

A)um número absoluto

B)uma quantidade qualquer

C)um número que não se pode precisar

D)uma pequena quantidade

16) Agora é a vez de expressar suas ideias. Com base no texto motivador “Coisas antigas”, e nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação, redija um texto, em norma culta, relatando, de forma literária, um acontecimento do cotidiano que lhe tenha despertado a atenção e sensibilidade. Dê um título ao seu texto.

Matriz de Referência

 

Descritor

Questão

Gabarito

Identificar gêneros textuais, considerando sua função social, seu circuito comunicativo e suas características lingüístico-discursivas.                           

01

02

C

C

Compreender globalmente os textos lidos, identificando o tema central e articulando informações explícitas e implícitas pela produção de inferências.

03

04

05

 

         B

         B

         D

 

Reconhecer as relações que organizam o conteúdo dos textos: causa, consequência, concessão, adversidade, entre outras.

06

07

08

        A

        B

        A

Estabelecer relações de continuidade temática a partir da recuperação de elementos da cadeia referencial.

09

        D

Reconhecer relações lógico-discursivas presentes no texto, marcadas por conjunções, advérbios, etc.

 

     10

 

 

        B

 

 

 

Distinguir uma  opinião relativa a um fato

11

        B

 Relações entre recursos expressivos e efeitos de sentido. Reconhecer o efeito de sentido decorrente da escolha de uma determinada palavra ou expressão.

12

13

14

15

        D

        C

        C

        C

Produzir textos como forma de interlocução, de acordo com as condições de produção, circulação e recepção.

16

PRODUÇÃO DE TEXTO